Nem sempre quem tem olhos, vê

 

“Ensaio sobre a cegueira”, livro de José Saramago, escritor português, é um romance que trata da visão. A visão de olhos sadios e a visão de olhos que não vêem. Mais do que isso, conta uma história sufocante e ao mesmo tempo parabólica.

Ao longo de suas páginas, o autor nos conta o caso de uma epidemia chamada “cegueira branca” que chega a levar uma cidade ao caos. Em um primeiro momento, poucos são os afetados e momentos depois o vírus é espalhado de maneira totalmente incontrolável. Diferentemente de uma cegueira comum, em que se vê a escuridão, a ausência de luz, os infectados vêem luz branca, que significa exatamente o oposto.

Houve o momento em que, na falta de uma solução ou ao menos uma explicação para o problema, o Ministério da Saúde vê como alternativa o isolamento dos cegos e os que tiveram contato com tais, para proteger os demais cidadãos. O isolamento ocorre em um manicômio desativado e obriga as pessoas a viverem em condições nulas de higiene e civilização. São tratados pelos responsáveis pelo isolamento como animais, mortos e alimentados como tais.

Dentre os cegos há a esposa do médico que mente estar cega para ficar junto ao marido. De maneira totalmente inexplicável, ela é a única que não é infectada pelo vírus – para sua sorte ou seu azar. Em um mundo onde ninguém vê, talvez fosse melhor que também não se visse, já que ver e não ser vista deve causar um desespero a mais. O livro descreve tão perfeitamente as cenas, que é impossível não se emocionar com esta busca pela necessidade de sentir-se humano novamente, de olhar e reparar, não somente ver o outro.

A vida como na pré-história, em que não havia civilização, aparece em vários momentos sob a forma de violência e selvageria humana. Tempos escuros, em que há a necessidade de se reaprender a viver. Em que somente as qualidades e os defeitos dos homens são vistos, e o brilho branco ilumina estas percepções. A convivência em grupo é necessária, e mais do que isso se busca a manutenção da dignidade.

Como já diz o antigo ditado: “O pior cego é aquele que não quer ver”, é exatamente esta mensagem intrínseca ao romance. Em anos totalmente individualistas, não há tempo para que se conheçam as pessoas em sua essência, não há tempo para que se conheçam seus vizinhos, nem ao menos para que se possa olhar para os lados e ver o que se passa ao nosso redor. Enquanto o mundo entra em colapso, pessoas compram ilhas e são felizes. Alguns se isolam do mundo em seus condomínios com altos muros, enquanto homens se matam por dinheiro.

Um dos grandes temas abordados é a solidariedade. Até que ponto a falta de civilização e visão afetam o amor e preocupação com o próximo? Uma esposa que abre mão de tudo para viver ao lado do marido e acaba por auxiliar, mesmo que indiretamente, de cerca de 300 pessoas. Uma história sobre a ética, sobre o poder sobre o outro e sobre o coração, que nos proporciona uma experiência imaginativa única.

Saramago optou por escrever utilizando-se de personagens sem nomes, o que, em um certo momento do livro, nos dá a impressão de que dali pra frente haverá dificuldade para o entendimento. Não é o que ocorre. Nomes são identidades, mas neste caso, estas são construídas no desenrolar do romance. Algo extremamente inteligente, visto que os cegos não são capazes de associar físico ao nome, mas personalidades a vozes. Cabe aqui mais um ditado popular: “Quem vê cara, não vê coração.”

Muitos esperaram pelo tão falado lançamento do filme – que ainda é um dos filmes mais vistos nos cinemas – de mesmo nome pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, que teve uma grande quantidade de críticas negativas. Não é para menos, já que escolheu por basear-se em tão polêmico livro e infelizmente seu filme não teve o mesmo sucesso.

O enredo é o mesmo, embora haja distorções como em qualquer filme baseado em livro. Um dos problemas está na conclusão do vídeo, que é vaga e exige uma série de reflexões para quem conhece o romance, ainda mais para quem não sabe do que se trata.

Não há um seguimento cronológico – de acordo com o do livro – dos fatos, algumas imagens são muito escuras, há ênfase em momentos desnecessários e a busca de comoção através das imagens. Assim como Saramago sugere em sua epígrafe – “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” – sugerimos o mesmo aos espectadores do filme.

O motivo de tal epidemia não foi apresentado no livro, mas ao menos houve conclusões dos personagens e do autor diante da situação, que nos levam a compressão. Diferentemente do filme, que não passa de ficção. Não há preocupação alguma em reflexões e experiências adquiridas com tal catástrofe.

Nas imagens, a mulher do médico chora o tempo todo, há água para higienização do corpo e do local, os recados diários para os mantidos em cárcere são transmitidos televisivamente – de que adiantam imagens para olhos que não vêm? -, além de uma série de mudanças. Há todo momento a personagem buscou manter-se forte, para que sua visão não fosse percebida pelos demais e para não assustar ainda mais os que sabiam a realidade. Após a saída do manicômio, somente ao lado de seus amigos, é que esta fraqueja e assume não agüentar mais tal situação.

Maravilhosa história. Recente e aconselhável. Recomendamos a leitura do livro a todos, até mesmo ao diretor do filme. Talvez seus olhos também não tenham visto e admirado a essência da obra como deveria.

 

***

Meu último trabalho de Gêneros Textuais do ano. Tive que postar aqui.

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”

Ensaio sobre a cegueira – José Saramago

Sobre Carola

Escrevo. Sem local, motivo ou propósito definido. Escrevo porque escrevo, porque tenho algo a dizer (ou a apagar).
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