Eternidade sem fim

Eu acreditava em eternidade. Ainda acredito, mas não mais na do corpo. Me decepcionei. Não com meu pai, claro que não. Me decepcionei com todas as forças em que acredito que me permitiram continuar crendo que o veria velhinho, sentado na poltrona da sala, com uma blusa de lã nas costas, um jornal em uma mão e uma xícara de café na outra. Eu tinha certeza que não o perderia nunca, que ouviria ele me chamando de “minha menina“ pra sempre. Pode parecer insano, mas não trabalhei com outra possibilidade porque não achei que houvesse. Meu pai era um herói, um mestre, um guerreiro, um modelo a ser seguido e, homens como ele, nunca morrem nos filmes.

Meu afilhado acha que meu pai virou uma estrelinha. Eu tenho certeza. Pessoas admiráveis estão em lugar de destaque e sempre vão estar. E aí ele pode ser eterno lá de cima, brilhando, me guiando e me fazendo lembrar de tudo o que ele me ensinou, até mesmo quando não dizia uma palavra. Ele vai ser eterno em mim, na minha teimosia e crença, no peito forte, na maneira de encarar os desafios com coragem e algumas lágrimas no escuro, nas frases que ele me dizia e nas imagens que tenho registradas na memória, até daquelas que me foram contadas, mas que não presenciei.

E hoje eu sei que errei. Errei quando me esforçava para esconder meus defeitos e falhas, quando não o abraçava com força todos os dias, porque achava que devia preservar o espaço dele e agir com racionalidade. Eu o coloquei em um pedestal e evitei chegar muito perto por medo de ser descoberta. O que eu não sabia era que ele sentia orgulho de mim e que eu era observada, que ele sabia exatamente quem eu sou. Me arrependo por não ter dividido minhas questões pessoais, meus medos, vontades e meus sentimentos, buscando uma certeza que não acontecia. Preservei ele e a mim de muita coisa. Não o metia em confusões, discussões, incertezas ou dúvidas, por respeito. Só dizia e mostrava o certo, porque eu não sei errar e sabia menos ainda como admitir a ele quando isso acontecia. Fui criada para vencer, para acertar, mas mesmo assim, ele me mostrava que pessoas como ele também erram. Sempre quis ser como ele e acho que tenho muito dele agora.

Ele lavaria um gambá por mim, até que ele ficasse cheiroso. Sempre me dizia isso, pra que eu jamais esquecesse. Eu inventaria a cura para o câncer por ele, atravessaria o mundo por recursos, imploraria por ajuda e seguraria a mão dele, todos os dias, para que ele soubesse que nunca está sozinho. Amor eterno, sabe? Daqueles que não tem fim.

Sobre pontodeinterrogacao

Escrevo. Sem local, motivo ou propósito definido. Escrevo porque escrevo, porque tenho algo a dizer (ou a apagar).
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